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O mundo de AMANHÃ deverá ser
o de regeneração, dando continuidade aos aprendizados e conduzindo os seres a
mais elevados patamares evolutivos.
Assim, se já estamos dando
os primeiros passos nessa transição, é importante começarmos a mudar alguns
enfoques, com vistas ao novo tempo.
Caridade
A aplicação da palavra
caridade também precisa ser repensada porque se desgastou pelo mau uso,
revestida de características humilhantes para quem é dirigida e de
envaidecimento de quem a pratica, situações incompatíveis com as idéias
espíritas.
Não seria bem melhor usar os
termos como fraternidade ou atos de amor?
É verdade que “fazer
caridade” tem peso no terreno do merecimento, mas não da evolução, porque esta
representa um processo contínuo de crescimento interior, que nada tem a ver com
aquela prática.
A evolução, em sua principal
vertente, ocorre mediante aquisição ou desenvolvimento de um sentimento, o amor.
Então haverá atos de amor e não de caridade. Praticar esta última pode preparar
terreno para o amor, pela percepção do sofrimento alheio, que mobiliza e
desenvolve sentimentos fraternos. Mas é importante destacar a diferença entre
atos de amor e caridade, na forma como ela é compreendida.
As palavras geram idéias,
com reflexos que influenciam posturas e atitudes.
Quando dizemos: “vamos usar
de caridade com fulano que está em erro, e orar por ele”, já o estamos
diminuindo, ou seja, estamos vendo-o como alguém abaixo de nós na escala de
valores, alguém por quem “caridosamente” vamos interceder. Observe que até mesmo
esse ato de orar por ele gera uma idéia por onde flui um pouco de desdém. É como
se o olhássemos do alto da nossa pretensa superioridade, dispondo-nos a ajudá-lo
“caridosamente”, com aquele ar displicente de quem atira, do alto da sua mesa
farta, algumas migalhas da sua preciosa atenção, através de uma prece.
Mas se dissermos: “vamos
orar por fulano que está em erro, pois ele precisa de ajuda”, estaremos nos
aproximando dele para estender-lhe mão amiga, nas vibrações do amor. É uma
situação diferente, que faz toda a diferença.
Vê como as palavras
condicionam atitudes, posturas e comportamentos?
Cultura do silêncio
Outra idéia distorcida que
pode ser observada nos meios espíritas refere-se ao "calar caridosamente",
quando não se concorda com algo ou quando alguém anda se conduzindo mal. Esse
tipo de caridade mal compreendida tem causado o afastamento de muitos
companheiros, que preferem “passar a mão no boné” e ir embora, em vez de
buscarem um diálogo franco e sincero, dentro das linhas do amor. Outros se
calam, mas desenvolvem cochichos, comentários dúbios, ou expressões que lançam
dúvidas sobre o companheiro em erro, podendo causar muito mais dano do que uma
chamada às falas a quem se deixou escorregar, podendo gerar repercussões muito
mais negativas do que a mera realidade.
Talvez pelo fato de o
Espiritismo nos convidar para um tipo de conduta muitíssimo difícil, cuidamos
muitas vezes de exagerar na dose do que entendemos como caridade e, assim,
preferimos fazer vista grossa em relação a condutas erradas que podemos observar
em torno de nós, entendendo que estamos sendo caridosos.
Na verdade, uma das ações
mais difíceis, que pede muita coragem e determinação, é a de conversar com um
companheiro para mostrar-lhe que está agindo em desacordo com os postulados
espíritas. Isto é até mesmo mais difícil do que um pedido de desculpas, desde
que o móvel seja exclusivamente o de ajudar o outro em suas dificuldades
evolutivas e não contenha qualquer vestígio de vaidade, daquela vaidade que
geralmente nos move quando intentamos apontar o erro alheio.
É dificílimo chegar a um
companheiro, que talvez seja alguém a quem muito estimamos, para apontar-lhe o
erro. Por mais amor e tato que possamos colocar nessa ação, havemos de vê-lo
humilhado, talvez revoltado conosco, magoado, ofendido... E certamente tememos
ver diminuído o seu apreço, seu afeto por nós. Podemos até mesmo nos questionar
se não estamos lhe causando alguma frustração, algum desencanto ou desilusão,
podendo isto levá-lo a se desestimular e talvez até mesmo a afastar-se da Casa e
quem sabe, do próprio Espiritismo.
Certamente, pensamentos tais
podem passar pela nossa cabeça e sentimentos amargos se desenvolverem como
conseqüência, levando-nos a desistir do intento ou optar por deixar que o
próprio tempo tome conta do caso e leve o companheiro a perceber seus erros e a
buscar corrigi-los. Mas se agirmos assim, fugindo ao que a consciência nos pede,
estaremos prejudicando nosso irmão, pela nossa omissão.
Quando um companheiro de
atividades espíritas passa a desenvolver vaidade, orgulho ou outro valor
negativo, ou começa de alguma forma a desviar-se do bom caminho, e ao olhar em
torno percebe nos circunstantes apenas sorrisos, acaba acreditando que está tudo
bem, ou que a sua má conduta não é tão má assim e, com isso, certamente irá
caindo mais e mais fundo. Isto acontece porque, por uma idéia distorcida sobre a
caridade, ninguém lhe estendeu mão salvadora, ou seja, ninguém o chamou para uma
conversa franca, visando alertá-lo com relação a seus atos ou atitudes. Será que
aqueles companheiros que comodamente fizeram vista grossa também não são
parcialmente responsáveis pelas suas quedas ou pelos seus erros?
O companheiro pode até mesmo
nem ter percebido seus deslizes por estar envolvido em situações daquele tipo
que nos cega, que não nos permite ver com clareza, a não ser o que nos possa
parecer como justificativas.
Devemos nos lembrar da
extraordinária força das paixões e do poder que os espíritos atrasados ou
perversos exercem sobre a nossa invigilância, e entender que o seareiro em erro
pode estar achando que está certo. E essa convicção se fortalece ao observar
apenas sorrisos em torno de si, em tácita aprovação.
Pense na formidável decepção
que terá no dia em que lhe “cair a ficha”, mesmo que isto ocorra apenas depois
do seu retorno ao mundo espiritual, ao constatar a falta de amor daqueles que o
cercavam e que poderiam tê-lo ajudado a retomar o rumo certo.
Cabe lembrar o que disse o
espírito S. Luiz em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, itens
19 e 21, que vamos transcrever, para maior facilidade de entendimento.
“Item 19. Como ninguém é
perfeito, ninguém tem o direito de repreender o próximo? “Seguramente não,
uma vez que cada um deve trabalhar pelo progresso de todos, sobretudo daqueles
cuja tutela vos é confiada. Mas é uma razão de fazê-lo com moderação, para um
fim útil, e não pelo prazer de denegrir – como se faz na maior parte do tempo.
Nesse último caso a censura é uma maldade; no primeiro é um dever, que a
caridade manda cumprir com toda cautela possível. Por fim, a censura que se
lança a um outro deve ao mesmo tempo ser dirigida a si mesmo, perguntando-se se
não a merece.
[...]
Item 21. Há casos nos
quais é útil revelar o mal no outro?
Essa questão é muito
delicada, e aqui é preciso fazer um chamado à caridade bem compreendida. Se as
imperfeições de uma pessoa só prejudicam ela mesma, não há utilidade alguma em
fazê-las conhecidas. Mas se elas podem causar prejuízo a outros, é preferível o
interesse da maioria ao interesse de um só. Segundo as circunstâncias,
desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever; pois antes caia um homem
que vários sejam feitos suas vítimas ou logrados por ele. Nesse caso, é preciso
pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”
Estas explicações de S. Luiz
nos levam a uma pergunta: Será que nós, espíritas, temos agido segundo essas
orientações?
Certamente é muito mais
difícil, nesse tipo de situações, agir com verdadeiro amor, fazendo o que for
necessário para ajudar o companheiro a reencontrar o caminho certo, mesmo que
isto possa provocar a diminuição do seu afeto por nós ou desagradar a comunidade
em que atuamos.
Também são inúmeros os casos
em que certas ações ou determinações do presidente da instituição, da diretoria
ou de algum diretor causam distúrbios e até prejuízos ao bom relacionamento ou
ao andamento das atividades, levando os tarefeiros a reclamações e comentários
entre si, sem coragem de adotar outras medidas, receando gerar desarmonia na
casa. Nestes casos é preciso avaliar em que o prejuízo seria maior, se numa
conversa franca com o autor ou autores da dificuldade ou nos murmúrios que
apenas envenenam o ambiente, talvez com prejuízos ainda mais graves à
instituição.
O ser humano tem necessidade
de sentir-se incluído em seus grupos sociais, por isso raros companheiros têm
coragem de romper com esse “status quo” e indispor-se com a direção da Casa que
freqüentam ou tornar-se antipatizados ou tachados de descaridosos, por adotarem
atitudes de censura ou questionarem aquilo que entendem estar errado.
Essa cultura do silêncio,
que vigora em nossos meios, precisa ser repensada.
Idolatria
A humanidade compõe-se de
seres com múltiplos aspectos, características, “manhas” conscientes e
inconscientes, além de necessidades as mais variadas.
Em razão disso, surgem
desvios como a idolatria. Através dela grande parte dos cristãos deixa de
perceber a grandeza espiritual de Jesus, transformando sua luminosa figura num
ídolo barato, cuja função é servir de bengala, ou melhor, de burro de carga aos
interesseiros e àqueles que não querem caminhar com os próprios pés.
Por que idolatramos alguém?
Porque esse alguém nos serve de algo. Se fosse apenas pelo prazer que nos dá
observar sua grandeza espiritual e receber orientações para o nosso crescimento
interior, certamente nossa relação sentimental e emocional com ele seria mais
equilibrada, de admiração profunda, afeto e amor. Já a idolatria é diferente,
pois gruda o idólatra a seu ídolo, e o primeiro fica sugando do segundo tudo o
que consegue, gerando dependência.
No caso de Jesus, as
religiões cristãs têm nele uma bengala, a mão forte que conduzirá seus fiéis,
não apenas ao Céu, quando chegar a hora, mas principalmente à solução dos mais
diversos problemas e à consecução dos mais diferentes desejos.
Em certo programa na
televisão, um empresário evangélico afirmava que Jesus ia sempre à sua frente em
todos os momentos e era Ele quem lhe facilitava os negócios e ajeitava as coisas
quando estavam mal. Era Ele quem lhe dava riqueza material, prestígio, “status”
e tudo o mais.
No meios espíritas também
podemos encontrar algo de idolatria, não só com relação a Jesus mas também a
espíritos como Bezerra de Menezes, Emmanuel, André Luiz, Chico Xavier e muitos
outros.
Sempre é importante ter-se
em vista que a idolatria prende o idólatra à imagem que ele próprio criou
visando sua defesa, prazer ou benefício, tornando-o impermeável à realidade, ao
verdadeiro sentido da existência ou da missão do seu ídolo.
Por isso, nos meios
espíritas, muitos dos que enxergam essa questão com maior clareza se afligem no
sentido de mudar a mentalidade estagnante da idolatria e, com isso, inúmeras
vezes partem para extremos, minimizando a figura do ídolo e até mesmo
refutando-a. Daí nasce o confronto, em que haverá sempre mais perdedores que
ganhadores.
Outros
enfoques pedindo mudanças
Termos como expiação,
carma expiatório, culpa e resignação refletem idéias
pesadas, condicionantes, gerando medo e complexos. Se estamos no limiar de um
novo tempo, o da regeneração, vemos oportuno mudar os enfoques:
expiação
para reajuste;
carma expiatório
para carma evolutivo;
culpa
para responsabilidade;
resignação
para aceitação;
caridade
para fraternidade ou
atos de amor.
Os termos reajuste e
carma evolutivo são mais leves, libertam o ser para os vôos da evolução.
Certamente, nas situações em que a vida machuca muito, é válido entender que se
trata de expiação, porque essa idéia resguarda a pessoa de sentir revolta, ao
entender que não está sendo injustiçada pela vida. O contrário poderia levá-la a
descrer da justiça divina.
Mas não é positivo
atribuir-se tudo ao carma. Afinal, o grande papel do sofrimento e das
dificuldades não é o da mão que castiga, mas o do professor que ensina a ciência
do bem-viver.
Muitos companheiros
espíritas, de forma equivocada, entendem que tudo que acontece é carma. Se
alguém dá uma topada e arranca uma unha do pé, estaria recebendo o retorno das
unhas que arrancou, quando fora carrasco do santo ofício em passada encarnação.
Entretanto, a topada pode ter acontecido simplesmente por descuido, mero
acidente, e até mesmo como recurso da vida, visando algum fim útil. Certamente,
pensar em retorno cármico deve ser sempre a última opção, vendo antes na dor e
nas dificuldades de qualquer natureza alguma lição que a vida está nos querendo
ensinar. Isto é muito mais saudável e proveitoso para nossa evolução.
Há alguns anos, quando
colaborava com um grupo espírita que assistia a uns oitenta idosos, pude
observar com toda clareza como é importante essa questão dos enfoques.
Os velhinhos, procedentes de
uma favela próxima, iam chegando isoladamente ou em grupos, uns silenciosos,
outros bulhentos. O ambiente era descontraído e as conversas calcadas em
brincadeiras inocentes, logo tomavam conta. Cada um apanhava seu copo de
refresco, o pão com manteiga e ia sentar-se para o lanche. Em seguida todos se
reuniam no grande salão onde seria realizado o Evangelho, seguido de passe
coletivo.
Naquela tarde a leitura de
O Evangelho Segundo o Espiritismo versava sobre as penas e expiações,
seguida da palavra de alguns espíritos sobre a necessidade de suportá-las com
paciência e conformação, visando resgatar erros do passado e antevendo
recompensas futuras.
A companheira que lia o
Evangelho fazia-o em tom lamentoso, e a sonoridade de sua voz caía pesadamente
sobre os psiquismos presentes.
A essa altura os semblantes,
antes alegres e descontraídos, mostravam-se soturnos e amargurados, como se
estivessem revivendo todas as suas tristezas e aflições. Aquele ar de
contentamento fora substituído por expressões de dolorosa conformação.
Deu vontade de levantar e
pedir a todos para sorrirem, cantarem e se abraçarem, agradecendo a Deus pela
vida, o ar, a natureza e a amizade, esquecendo-se das suas mágoas e dores;
dizer-lhes que o ser humano precisa aprender a sentir-se feliz, apesar dos
problemas ou sofrimentos. Mas aquela disciplina que aprendemos na Casa Espírita
não permitiria tal atitude.
O ambiente era de funeral,
os comentários do Evangelho seguiram o mesmo estilo e a prece, pedindo a
fluidificação da água, foi vazada em voz que mais parecia um lamento que um
pedido.
Os velhinhos foram saindo um
a um, mais vergados que antes, sentindo com mais intensidade as suas aflições.
Voltei para casa pensativa.
Será esse o papel do Espiritismo?
No livro Reforma Íntima
Sem Martírio, psicografado por Wanderley Soares Oliveira, o espírito
Ermance Dufaux, falando sobre o sofrimento, assim se expressa:
“O culto à dor tornou-se uma
cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é
sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a
compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade,
somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de
conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas continuam orgulhosas,
insensatas, hostis e rebeldes.”
Se nossa humanidade está
transitando de “provas e expiações” para “mundo de regeneração”, conforme
informam os espíritos, está claro que a nossa mentalidade também precisa ser
reformulada, para atender com segurança as necessidades dessa transição. Se
ficarmos engessados no pensamento antigo, calcado na temática do sofrimento como
necessidade expiatória, como poderemos trabalhar pelo novo modelo?
É natural que prepondere num
mundo de provas e expiações a idéia do Consolador, como também é a Verdade que
deve preponderar num mundo de regeneração.
E é justamente essa
mentalidade mais avançada, mais adequada à época, que vem surgindo aqui e ali
nos meios espíritas.
Aquela idéia de que “vamos
sofrer resignadamente porque receberemos recompensas no mundo espiritual” está
começando a mudar para um discurso mais saudável e progressista: “vamos buscar o
nosso crescimento interior, desenvolver nossas qualidades superiores e as nossas
potencialidades; ajudar a comunidade procurando levar-lhe as verdades
espirituais, além de trabalhar visando conscientizá-la quanto à importância da
sua participação na transformação do mundo; auxiliar o ser humano a comandar
seus estados de espírito, erguer-se e caminhar com os próprios pés”.
É a cruz transformando-se em
instrumento de trabalho, de crescimento e de alegria.
Sem a mais remota idéia de
tecer críticas aos espíritos que trabalharam na codificação do Espiritismo,
devemos lembrar que a maioria deles era procedente da Igreja Católica, por isso
em seus enfoques transparecem conceitos que, se podiam ser adequados àquela
época, estão carecendo de revisão.
Podemos observar essa
tendência em algumas passagens, como no capítulo em que falam sobre as penas e
recompensas. A linguagem é bastante semelhante à da Igreja. No capítulo
Bem-aventurados os aflitos, Lacordaire diz: “O homem não recebe nenhuma
recompensa para esse tipo de coragem, mas Deus lhe reserva seus louros e um
lugar glorioso”. Essa idéia de recompensas, louros e um lugar glorioso é
adequada a espíritos que ainda não alcançaram certo grau de entendimento e que
necessitam desse tipo de muletas para caminhar melhor. Mas hoje, em pleno
trânsito para uma nova época, essa velha mentalidade deve começar a ceder lugar
à do trabalho pela auto-superação, a auto-ajuda, o crescimento da criatura como
ser cósmico. Tal crescimento por si só, deve ser o seu maior fator de felicidade
atual e futura. Também se observa aí um toque de vaidade na expectativa de
glórias, incompatível com os ensinamentos de Jesus e as idéias transmitidas pelo
Espiritismo. E mais adiante Santo Agostinho diz: “O Senhor marcou com seu selo
todos os que acreditam nEle”, ou seja, passa a idéia da salvação pela fé.
Como vemos, aqueles
espíritos, embora de elevada estirpe, mantiveram até certo ponto um linguajar e
idéias compatíveis com suas últimas reencarnações ou, quem sabe, preferiram usar
aquela linguagem como um degrau para entendimentos mais elevados.
Por isso e também porque o
bom senso indica não se deve entender tudo ao pé da letra.
Sofrer hoje, resignadamente,
visando louros e glórias no Céu, demonstra curto entendimento sobre evolução. Um
espírito evoluído, pela humildade que lhe é própria, jamais encontrará a
felicidade nesses louros e glórias, mas sim em seu próprio estado evolutivo, que
é jubilosamente luminoso.
Assim, é hora de começarmos
a abandonar aquelas idéias de comprar um lugar no Céu, ou na colônia espiritual
Nosso Lar, através da conformação, uma postura estagnante, que ainda voeja nas
cabeças de muitos espíritas que entendem ser necessário sofrer para purificar a
alma, ou pagar culpas do passado, como se apenas pagar essas culpas fosse o
suficiente.
Certamente, no novo modelo
que deverá nortear o mundo de regeneração, serão utilizados caminhos outros, que
não apenas a dor, para a evolução dos seres.
A largueza de vistas do
Espiritismo mostra ao ser humano que ele deve buscar a felicidade, o bem-estar,
o contentamento, desde que não arranhe a ética cósmica, ou seja, as leis de
Deus.
Por certo é importante
aceitarmos o sofrimento que não pudermos mudar, mas há diferenças fundamentais
entre aceitar e conformar-se, como também é indiscutível que podemos, sempre,
mudar nossa vida para melhor, começando por melhorar os próprios estados de
espírito e as atitudes. E, mesmo aceitando o sofrimento como necessário à
evolução, ou como retorno de atos do presente ou do passado, devemos recebê-lo
como lição e não como carga.
Resignação
Também a palavra resignação
passa uma idéia negativa, de alguém que se arrasta pesada e resignadamente pelos
caminhos da vida, carregando sua cruz. Já a palavra aceitação é mais
leve. Aceitar as agruras da vida não significa inércia nem sofrimento, mas luta
para quem se afeiçoa a ela, possibilitando desenvolver esperança e
contentamento, valores fundamentais para quem deseja vencer.
Por esses novos enfoques
podemos também perceber a importância de começarmos a mudar aquele tom que é
usado em alguns centros espíritas, o da voz melíflua, chorosa, piegas,
orientando para a conformação, colocando como exemplo os sofrimentos de Jesus e
acenando com as recompensas futuras. A nova civilização que está para nascer
pede discursos diferentes, aproveitando, inclusive, o muito de bom que já existe
na área do conhecimento humano, visando o crescimento da criatura em toda a sua
plenitude.
Culpa
Também os sentimentos de
culpa, pela ótica espírita, são pertinentes apenas no que dizem respeito ao
mal que fazemos aos outros, à comunidade, a nós mesmos e à natureza; mesmo
assim, só devem persistir na medida em que nos levem à correção, ao reajuste e
ao resgate, quando for o caso. É natural e mesmo útil que esses sentimentos
perdurem por algum tempo, após o ato que os gerou, mas sem que isso se
transforme num peso inútil a martirizar a alma. Da mesma forma, não cabe ao
espírita sentir-se culpado perante Deus, mas sim perante a própria consciência e
também diante de quem vitimou, porque o Ser Supremo não se ofende, não se magoa
nem se aborrece com nossos erros. As suas leis existem, não para nos cercear ou
violentar, mas para nos orientar a evolução.
Reportamo-nos mais uma vez
ao espírito Ermance Dufaux, no livro anteriormente citado:
“Freqüentemente existe um
trio de sicários da alma que a chicoteiam durante as etapas do amadurecimento,
são eles: baixa auto-estima, culpa e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos
psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos para
gerenciá-los. Assim, a culpa transforma-se em auto-aferição da conduta e freio
contra novas quedas, a baixa auto-estima converte-se em capacidade de descobrir
valores e o medo de errar promove-se a valoroso arquivo de experiências e
desapego de padrões.”
Sentimentos de culpa,
portanto, só são válidos como força propulsora para os devidos resgates e o
crescimento interior do ser.
Esse é um tema que deveria
merecer, principalmente dos palestrantes e dirigentes espíritas, o maior
cuidado, particularmente ao tratar de questões como o aborto e o suicídio, para
que não agravem ainda mais a situação, lembrando que as pessoas envolvidas em
tais ações, certamente, já carregam grandes sofrimentos ou graves pesos
conscienciais.
Certa vez um amigo contou
que há muitos anos, quando convidado a fazer uma palestra sobre o suicídio num
centro espírita, caprichou nas explicações sobre o sofrimento pelo qual passam
aqueles que tiram a própria vida. Foi brilhante em seu discurso, mas, ao final,
o presidente da casa veio pedir-lhe para consertar os estragos feitos a um casal
que assistira à palestra e que havia perdido um filho há poucas semanas, por
suicídio. Eles tinham procurado o Espiritismo buscando consolo para sua dor e
encontraram ainda mais dor.
Talvez pelo grande número de
palestras que alguém faz, ano após ano, acaba se automatizando. O fluxo de
palavras desce de forma quase automática dos arquivos mentais, sem passar pelo
crivo do bom senso, do questionamento, sem a preocupação de saber se devem ser
ditas ou caladas. Muitas vezes os discursos ou as respostas já estão prontinhos
e na “ponta da língua”, sem serem tocados pelas asas da razão, sem que se
questione se são oportunos e adequados à situação e ao momento. Também a
empolgação por estar frente a um público que o ouve atentamente, criando certa
relação de poder, pode gerar descuidos altamente prejudiciais.
Muitas das perguntas que são
feitas a espíritas abrangem situações com mais de uma vertente. Daí, também, a
necessidade de sempre refletir-se antes de responder e, se não souber com
segurança, deve-se ter a humildade de dizê-lo.
Inúmeros são os casos, às
vezes muito delicados, de pessoas que ouviram de espíritas que gozam de
credibilidade respostas peremptórias às suas perguntas, e essas respostas,
posteriormente, foram desmentidas pelos acontecimentos. Além de causar prejuízos
a essas pessoas, isso gera descrédito para o próprio Espiritismo.
Por isso é fundamental que
aqueles que falam em nome desta doutrina sejam cautelosos no falar, que reflitam
antes de dizer algo que possa vir em prejuízo de quem está necessitando de
apoio, conhecimento ou ajuda.
Espiritismo não deve ser
decorado, mas refletido.
Visão mais ampla sobre o
Espiritismo
Estamos habituados a
entender o Espiritismo como o caminho para a evolução moral e espiritual do ser,
e o sofrimento como recurso para sua redenção.
Devido à evolução do
conhecimento e das muitas áreas do saber voltadas para beneficiar o ser humano,
como também às mudanças solicitadas por esta época de transição, podemos começar
a ver o Espiritismo por um prisma diferente. Não apenas um caminho religioso,
visando à evolução espiritual do ser, mas todo um contexto que pode favorecê-lo
com mais equilíbrio, saúde, harmonia, melhor convívio, melhor qualidade de vida
e felicidade, enfim, proporcionar-lhe uma vida realmente mais plena.
Isso
pode ser percebido, quando ampliamos os antigos enfoques, acrescentando à idéia
de Espiritismo como fator moral-espiritual, outras como “instrumento na busca ao
homem integral, ao ser pleno, saudável, de bem com a vida”.
Também o
conceito de sofrimento como caminho para a redenção da criatura, podemos passar
a perceber como instrumento para o seu despertar, para alavancar seu processo de
crescimento interior.
São
mudanças de visão que impulsionam nossa evolução.
E há
ainda a questão dos companheiros que entendem que o Espiritismo é suficiente
para solucionar todos os problemas vivenciais. Ocorre que há casos em que o
apoio profissional é imprescindível para minimizar ou eliminar traumas, fobias,
complexos e condicionamentos, que poderão refletir-se na saúde física e no
equilíbrio psíquico.
No mundo
moderno as dificuldades e os problemas ligados à psique vêm se multiplicando.
Nos meios espíritas, em alguns centros, situações dessa natureza são tratadas
como sendo tão-somente de origem espiritual, e quando um companheiro está
sofrendo de depressão, ansiedade ou síndrome do pânico, muitas vezes é rotulado
como obsediado. Isto reflete absoluta falta de fraternidade e de conhecimento. É
preciso entender que inúmeros desses casos resultam de problemas orgânicos,
bioquímicos e energéticos, embora possam ter raízes em ocorrências de vidas
passadas, como também podem apresentar algum componente espiritual. Nessas
situações, por receio de serem rotulados como obsediados, inúmeros seareiros
preferem afastar-se dos trabalhos espíritas a dizer que estão sofrendo de
problemas dessa natureza.
Não será
oportuno passarmos a valorizar também os aspectos médico e psicológico dos
nossos companheiros de atividades espíritas, orientando, quando necessário, para
a busca de ajuda profissional? Isto, é claro, sem criar-lhes qualquer sombra de
estigma ou rótulo.
Perdição e salvação
“Levanta-te e anda”, “Ama teu próximo”, “Sê perfeito”, “Não julgues”, “Perdoa”,
são orientações de um MESTRE.
Mas
seguir essas orientações é tão difícil que os cristãos, digamos que numa idade
espiritual ainda infantil, buscaram a variante da teologia, criando infinitas e
inúteis discussões.
Transformaram a figura do Mestre em objeto de adoração e idolatria.
Deturparam a missão de Jesus e a relação dos seus seguidores para com Ele.
Criaram
uma relação de
piedade
pelos Seus sofrimentos, exaltados ao máximo, e de interesse pelo Seu sangue a lavar pecados e salvá-los, e por
todo tipo de ajuda que Ele poderia dar-lhes. Transformaram-no no mártir da cruz
e no salvador.
Esse tipo de relação gerou
no Cristianismo:
a) pieguismo doentio;
b) dependência doentia;
c) adoração doentia.
Acontece que alguma parcela
do movimento espírita brasileiro herdou algo dessa cultura.
Entretanto, qual a relação
que Jesus sempre estimulou?
A do MESTRE para com seus
discípulos: aquele que ensina, orienta, aconselha, esclarece e até ampara nos
momentos difíceis, mas sem dependências, idolatria, pieguismo ou adoração
doentia.
VAMOS REFLETIR?
Duas idéias incoerentes
foram criadas pela Igreja Católica e perduram no seio do Cristianismo. São elas
a perdição e a salvação, ou seja, a humanidade estaria perdida por
causa do pecado de Adão e Eva, por isso Deus precisara enviar seu filho inocente
e puro para ser imolado, a fim de que seu sangue purificasse o ser humano e seu
sacrifício o redimisse.
Mas essas idéias não fazem
sentido porque, sendo Deus onipotente, o máximo poder do universo, autor das
leis universais, poderia simplesmente perdoar os pecados do ser humano, sem
necessidade de sacrificar alguém, muito menos um inocente. Aliás, essa
perspectiva de sacrificar alguém em nosso lugar é muito cômoda, alimentada pelo
egoísmo e hipocrisia humanos. Além disso, seria necessário fazer-se uma idéia
muito estúpida sobre Deus para entender que Ele poderia criar leis tão injustas,
mediante as quais os erros de alguém seriam resgatados com o sacrifício de
outrem.
Essa ótica sobre a
necessidade de sacrifícios para aplacar a ira dos deuses vem do paganismo, foi
assimilada por Abraão e sua descendência e adotada por Moisés, que realizou um
magnífico trabalho de codificação ao longo dos livros do Pentateuco, detalhando
e enumerando cada pecado possível de ser cometido pelos descendentes de Israel,
com a punição correspondente. Essas punições, em sua maioria, eram de
sacrifícios de animais, acreditando-se que o sangue derramado aplacaria a ira de
Deus, que, assim apaziguado, paparicado, iria continuar a abençoar o pecador que
se redimira.
Outra idéia incongruente que
foi colocada na Bíblia, no Antigo Testamento, é a de que Deus se agradava com o
cheiro do sangue dos animais imolados. Imagine que tipo de ser seria esse, a
gostar de sangue. O escritor Jayme Andrade, no livro O Espiritismo e as
Igrejas Reformadas, diz que Jeová, certamente, seria um espírito protetor do
povo israelita, uma espécie de deidade tribal, mais ou menos identificada com a
índole da raça e que assumia junto ao povo a condição de Deus. Assim se podem
explicar as inúmeras absurdidades encontradas na Bíblia com relação a Jeová, ou
Senhor, como também o chamavam. (Mais detalhes no livrinho Temor a Deus.)
As palavras redenção
e salvação, utilizadas nos meios religiosos cristãos, vieram desse
contexto, tanto que Jesus foi tido como o “Cordeiro de Deus, imolado para tirar
os pecados do mundo”, ou seja, seu sangue teria lavado os pecados de Adão e Eva,
os quais maculavam as almas de todos os seus descendentes, redimindo-as, e seu
sacrifício salvaria do inferno aqueles que cumprissem fielmente os preceitos das
suas religiões.
Esse conceito é tão infantil
quanto a mentalidade humana daquela época. As idéias sobre Deus eram
absolutamente incompatíveis com o bom senso. O Espiritismo, felizmente, veio
colocar as coisas nos seus devidos lugares, mostrando ao homem um enfoque mais
real sobre o Criador, as suas leis, a vida. Mas, em razão dos condicionamentos
milenares sofridos pelo psiquismo do mundo cristão, até mesmo nos meios
espíritas ainda perduram certas estruturas dessa mentalidade.
Num entendimento mais
saudável, poderíamos dizer que ninguém está precisando salvar-se porque ninguém
está perdido. Estamos todos, sim, precisando evoluir.
Mas, ante esse conceito
sobre a inexistência da salvação, como ficaria aquela máxima da codificação
“Fora da caridade não há salvação”?
É preciso entender que o
sentido dado a essa palavra indubitavelmente não é o mesmo do significado que
tem na Bíblia. É preciso observar-se a época e a circunstância em que essa
máxima foi dita. Foi uma contraposição ao dogma “Fora da Igreja não há
salvação”.
E Kardec, nesse mesmo
capítulo, em seus comentários aos textos do Evangelho, em vez da palavra
“salvação”, usa “felicidade futura”.Todo o discurso da codificação nos fala em
evolução ao longo das reencarnações e isto é incompatível com a idéia da
salvação bíblica.
O Espírito Verdade trouxe um
universo de informações que foram codificadas e comentadas por Kardec. O
conteúdo desse “pacote” de novos conhecimentos é de molde a produzir mudanças
nos enfoques e na vivência das pessoas. São mudanças que ocorrem pela
conscientização do que é bom e do que não é bom para o presente e o futuro da
própria pessoa. É a via certa e mais segura de transformação, de crescimento
interior dos seres e da própria coletividade.
Mas, enquanto virmos Jesus
como o Salvador, estaremos sempre nos atrelando a Ele, procurando n’Ele muletas
ou mesmo uma “carona” para Nosso Lar, quando não, a mão de uma babá a nos
conduzir vida afora. É a anti-evolução.
Podemos também entender que
essa questão reflete o nosso momento evolutivo. Quando vemos em Jesus o
Salvador, esse tipo de relação se assemelha à da criancinha com aqueles que
cuidam dela, quando espera deles e até mesmo exige alimento, cuidados
necessários para o seu bem-estar, amor, atenção e as brincadeiras de que gosta.
Pense agora como é a relação
do jovem para com o pai, a mãe ou alguém a quem ama e admira profundamente. É
bem diferente. É a relação de alguém que procura espelhar-se nas qualidades que
admira no outro. Da mesma forma, numa relação menos infantil com Jesus,
forçosamente veremos n’Ele o Mestre. E quando nos dedicamos a meditar sobre a
Sua grandeza espiritual, serenidade, força, amor e sabedoria, o vínculo que
criamos com Ele irá nutrir-nos com esses valores, e poderemos assimilá-los na
medida em que a nossa idade sideral permitir.
Quanto à imagem que d’Ele
fizeram como o mártir da cruz, quando relembrada vez por outra, de forma
correta, pode ajudar na construção do nosso interior, no que diz respeito ao
exemplo que nos legou de força moral, estoicismo e aceitação da vontade de Deus;
do amor que demonstrou em meio aos mais horríveis sofrimentos, ao perdoar seus
algozes; da fidelidade aos princípios esposados e da serenidade nos momentos
mais difíceis. Mas convém atentar para o fato de que até mesmo nos piores
momentos no drama da crucificação, Jesus foi acima de tudo o Mestre, porque até
mesmo ali, de forma muito especial, foi o vívido ensinamento. Não tremeu ante
aquele desfecho, não abjurou sua fé nem seus princípios, não se acovardou
negando sua missão para livrar-se da cruz. Além de Mestre, foi exemplo vivo de
tudo que ensinou.
Fica assim muito clara a
necessidade de se começar a desenvolver debates amplos e equilibrados em torno
dessas e de outras questões, para que todos possam reorganizar suas idéias, já
que todos nós, por mais firmes que sejam nossos conceitos, podemos, de repente,
observar que algo em nossas posturas pede mudanças. Mas sempre é importante
desenvolver esses debates com muita prudência, porque em embates dessa natureza,
quando envolvem algo que se possa entender por “pureza doutrinária”, há
tendências à radicalização. Por isso os debates devem ser conduzidos com muito
cuidado e permanecer sempre tão-somente no terreno das idéias.
Texto extraido do
livro A Transição está pedindo mudanças (Saara Nousiainen/Simone Ivo
Sousa)

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