 |
Na questão 621
de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta
onde estão escritas as leis de
Deus, obtendo
a seguinte resposta: “Na consciência”.
|
Refletindo
sobre as implicações da prática da alteridade pelos seres humanos, pode-se
afirmar que esse é um valor que está escrito em nossas consciências e que
somente agora começa a ser descoberto, quando já se podem vislumbrar alguns
tênues clarões a indicarem a aurora de um novo tempo. Seu significado reflete
uma nova mentalidade, aquela que deverá vigorar na civilização que, certamente,
irá transformar a Terra num mundo de regeneração porque se refere à aceitação
das diferenças; também significa a não-indiferença, o amar ou ser responsável
pelo outro, o aprender com os diferentes, aceitando e respeitando-os em suas
diferenças. A propósito, devemos lembrar que todos os seres humanos são
diferentes uns dos outros.
A postura
alteritária nos leva a ver todos com bons olhos, lembrando as palavras de Jesus:
“Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus
olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.” (Mateus 6:22 e 23)
Conforme o
Professor Luiz Signates, “A alteridade é uma "estratégia" fundada na ética da
fraternidade e da paz; um indicativo de como agir diante dos conflitos do mundo,
inclusive os nossos, a fim de que possamos construir o mundo de regeneração, por
representar, em sua profundidade, as leis cósmicas de convívio entre os seres.
Com relação ao Espiritismo, pode-se dizer que ela chegou como uma reflexão para
mostrar um caminho maduro de relacionamento no movimento espírita”.
A pessoa que
vivencia a alteridade passa a ser mais fraterna em todos os sentidos, deixando
de criticar, julgar, agredir...
As atitudes de
não-crítica, não-agressão e não-julgamento deixam o ser em paz consigo mesmo,
com a humanidade, com a vida.
Aí você poderá
contestar dizendo que atitudes assim tornam a criatura alienada. Mas há grande
diferença entre analisar – com vistas ao próprio aprendizado e também no intuito
de ajudar, caso seja viável – e julgar, criticar, enviar uma vibração negativa
para o errado, seja ele uma pessoa, uma instituição ou uma nação, já que as
instituições e as nações são formadas por pessoas.
Por exemplo,
você vê alguém caminhando sobre a grama de uma praça para encurtar caminho e
pensa: “Que criatura mais sem educação!”.
Nesse ato de
criticar intimamente a atitude daquela pessoa, você está gerando uma vibração
negativa, ou seja, “psicoenergia” pesada. Parte dela fica em você, seu gerador,
e outra parte alcança a pessoa que pisou a grama para cortar caminho. Por outro
lado, se apenas registrar o ato errado, mas respeitando a diferença do outro,
não criticá-lo, estará fazendo um bem a si mesmo e deixando de fazer mal a
outrem. Mas digamos que, agindo com alteridade, ou seja, sentindo-se também
responsável por ele, você entende que deve falar-lhe, alertando-o para o erro
que está cometendo, fá-lo-á afetuosamente, de forma a não humilhá-lo,
encontrando a melhor maneira de ser, junto àquela pessoa, uma presença benéfica,
e, caso seja inviável esse alerta, poderá emitir-lhe uma vibração fraterna junto
com a idéia de que não se deve pisar a grama.
Quando nos
habituamos a tudo criticar, observando os outros por uma ótica não alteritária,
nosso foco fica dirigido a eles em tons negativos, vigiando a forma como se
conduzem nos menores detalhes e, é claro, colocamos a nós mesmos como parâmetro
nessa medição de erros, nesse julgamento contínuo que exercemos com relação a
tudo e a todos. Esse fato nos leva a desenvolver de forma contínua uma vibração
pesada e antagônica em relação aos outros, porque sempre iremos encontrar neles
o que qualificamos como errado. Além disso, estaremos também desenvolvendo nossa
vaidade ao compararmos conosco aqueles que consideramos errados, sem falar que
essa “psicoenergia” negativa que geramos, alcançando o alvo, poderá induzi-lo
mais ainda à prática das ações que nele condenamos. Atuará sobre ele como fator
indutor.
Mas, se
desenvolvemos a alteridade, respeitando completamente a maneira de ser dos
outros, em seus erros, equívocos e até mesmo em suas maldades, lembrando que
todos somos seres em diferentes faixas evolutivas, tornamo-nos mais leves, mais
de bem com a vida, mais alegres e também mais saudáveis. E se entendermos e
aplicarmos verdadeiramente a alteridade, faremos uma prece pelos que estamos
observando em erro e lhes direcionaremos vibrações positivas, indutoras de ações
mais corretas.
Outro
exemplo que pode ser citado é o que acontece em alguns centros e grupos
espíritas que
aliam suas práticas ao modelo salvacionista, igrejeiro, cultuando espíritos
encarnados e desencarnados, ou onde os cânticos fazem parte do que muitos
companheiros jocosamente chamam de "missa espírita”. Mas, se observarmos tal
fenômeno por enfoque de mais elevada compreensão, podemos entender que há
infinito número de pessoas que se abrem para o conhecimento espírita, mas os
seus conteúdos psicológicos reencarnatórios ainda se encontram saturados de
catolicismo ou protestantismo. São pessoas que se sentem melhor nesse tipo de
ligação com o alto; que conseguem maior sintonia com as forças mais elevadas
pelas vias que mais fortemente lhes falam ao coração. Será que essas pessoas,
aos poucos, com seu próprio amadurecimento, não acabarão migrando para um grau
de entendimento mais coerente com a essência do Espiritismo? A natureza não dá
saltos e precisamos respeitar essa lei, tanto para nós quanto para os outros.
Nos meios
espíritas, urge adotarmos a alteridade como bandeira; aprendermos a nos
posicionar sempre influenciados por seus valores e, em vez de dividirmos em nome
da “pureza doutrinária”, por que não somarmos em nome do amor?
Mas há um
ponto importante a ser percebido em sua totalidade e de forma não distorcida.
Diz respeito à crítica. Como o ser humano, ou grande parte da humanidade, tem a
tendência de pular de um extremo para o outro, é bem provável que muitos
espíritas, ao abraçarem as idéias da alteridade, caiam nesses extremos e passem
a adotar a omissão ou a conivência como sendo posicionamentos alteritários.
Ocorre que
exercer a faculdade da crítica faz parte do crescimento do ser humano. Só que há
dois tipos de crítica, uma é saudável, a outra, não.
Na crítica
saudável observamos, analisamos, buscando entender os porquês, confrontando tudo
com o que sabemos e o que entendemos que seja o melhor e o mais correto, sempre
na intenção do aprendizado e visando roteirizar para nós próprios os melhores
modelos. Podemos também realizar essas análises, visando de alguma forma
colaborar para que sejam corrigidos ou minimizados quaisquer erros que vamos
encontrando em nossas apreciações. Se acrescermos a esse tipo de crítica os
valores da alteridade, havemos sempre de encontrar a melhor maneira de ajudar,
de ser presenças benéficas onde estivermos, nem que essa ajuda se dê tão somente
através de uma prece ou de uma vibração positiva. Isto equivale a uma atmosfera
interna de boa vontade, de olhar tudo e a todos com bons olhos, a desenvolver
uma vibração positiva. Isto é benéfico para quem age dessa forma, para os que o
circundam e também interfere ou interage de forma positiva com as próprias
circunstâncias.
Na crítica
saudável, podemos dialogar com tranqüilidade, debater nossos pontos de vista,
trocar idéias, estar abertos para aprender com os outros, enfim, participar
ativamente das situações, sempre visando o bem geral. Isto nos torna seres
benéficos para nós mesmos e para os outros, tanto em nosso lar, quanto no
ambiente profissional, na sociedade, em nossa comunidade...
No tipo de
crítica não-saudável, desenvolvemos uma ambiência interna pesada, do contra,
sempre dispostos a encontrar erros em torno de nós. Posturas assim são geradoras
de energismo pesado, desagregador, além de fomentar orgulho e vaidade em quem as
vivencia.
Mas, se de
todo não conseguimos nos conter, ao percebermos que estávamos tecendo críticas
ou mesmo comentários negativos sobre alguém, podemos anular os efeitos danosos
que atitudes tais podem gerar tanto no criticado quanto em nós, invertendo as
ações, ou seja, passando a garimpar os valores de quem estávamos alvejando com
nossos pensamentos ou palavras.
Também é
digno de nota o fato de que nos meios espíritas é muito fácil desenvolvermos um
estado de crítica negativa com relação às religiões e a outros saberes, tendo em
vista o universo de conhecimentos transcendentais que o Espiritismo nos
proporciona. Esse tipo de procedimento é também gerador de orgulho. Mas uma
postura alteritária é niveladora, ajudando a eliminar o orgulho, por nos
propiciar entendimentos mais amplos, pelos quais podemos perceber a importância
de todos os demais saberes, filosofias e religiões na evolução da humanidade.
Na verdade, a
alteridade, em sua essência, deve manifestar-se assim como uma postura ética ou
um alicerce interior, sob cujas diretrizes se constrói o nosso pensamento e
emoções, dentro de um entendimento mais pleno sobre o ser humano e a própria
vida. Assim, lançando um olhar mais sincero e mais livre sobre os circunstantes,
aqueles que por qualquer motivo consideramos inferiores a nós, podemos vê-los de
forma algo semelhante a como os espíritos superiores nos vêem. Eles não se
incomodam nem se surpreendem com as nossas inferioridades, posto que as nossas
mazelas não mais encontram eco em seu interior. Esse tipo de percepção
representa um gesto interior de luz, que abre portas para o desenvolvimento do
amor pleno. É também um caminho para a verdadeira humildade.
Por estas
sucintas considerações, é possível perceber a importância da alteridade nos
meios espíritas como uma postura de vanguarda, sinalizando um modelo de convívio
para o novo tempo, o mundo de regeneração.
Quanto à
propalada unificação do pensamento e das práticas espíritas, que, por sua
própria natureza, caracterizam-se por tendências libertárias, entendemos ser
algo utópico. Assim, muito melhor do que brigar por questiúnculas doutrinárias
ou modelos unificados de práticas é abraçarmo-nos fraternalmente,
respeitando nossas diferenças, aceitando nossas divergências e juntos
trabalharmos mais intensamente pela difusão dos princípios espíritas e pelo bem
do ser humano.
E que viva o
amor, em todas as suas manifestações.
Quando,
um dia, os valores da alteridade e do amor fizerem parte da vivência das
pessoas, o mundo inteiro vai perceber que a vida é bela e vale a pena viver; que
o amor é alegria e vai entender que o Cristo voltou.
(Texto
extraído do livro A Transição está pedindo mudanças,
de Saara
Nousiainen e Simone Ivo Sousa.
Você pode "baixar" esse e
outros livros na página
downloads
)

Sempre que
lembrar, agora mesmo, desenvolva um
sentimento
de amor e envolva nele os companheiros de atividades,
o
centro que freqüenta e todo o movimento espírita.

Quando aprendermos
a nos amar
o Mestre nos reconhecerá como seus discípulos.
Voltar ao início da página
|