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O movimento espírita está numa
espécie de repetição da história do cristianismo primitivo, numa
fase decisiva em sua caminhada. É como se estivéssemos diante de
duas portas, uma larga e outra estreita, exatamente como na
advertência de Jesus.
A larga dá acesso a um caminho
também largo e confortável, que segue através da planície. A
outra dá acesso a um caminho pedregoso, estreito, que sobe pelas
escarpas da montanha, numa jornada difícil e sacrificial.
Pelo caminho largo, não
precisamos estar constantemente em alerta, observando onde
pisar, nem fazer muito esforço para caminhar. Basta deixar-nos
levar.
No estreito, a subida é
difícil. Nossos pés se machucam nos pedregulhos, enquanto o
corpo vai se ferindo nos espinhos, mas, em meio aos pedregulhos,
crescem lírios brancos a embelezar e perfumar nosso ambiente e,
em torno dos espinhos que nos ferem, encontramos folhas verdes a
simbolizarem esperança. O suor que escorre pelo rosto e pelo
corpo, nos esforços da subida, reflete a purificação da nossa
alma pela eliminação de toxinas espirituais, do lixo interior
que fomos acumulando ao longo do tempo. E quando menos
esperamos, alcançamos o topo da montanha de uma nova etapa
evolutiva.
Olhando então para trás, para
os caminhos difíceis que acabamos de percorrer, nossa alma se
encherá de alegria pelas escolhas acertadas que fizemos.
Mas... se a escolha foi o
caminho largo e fácil, já que temos o direito de escolher...

Quando
Jesus veio trazer
novos paradigmas à humanidade, seus seguidores tiveram a missão
de levar aquelas idéias para o mundo. Se eles tivessem seguido
pelo caminho largo, o da planície, o cristianismo teria morrido
em seu nascedouro, mas aqueles cristãos fizeram do “vivenciar os
ensinamentos de Jesus e difundir a Boa Nova” o seu projeto de
vida, a sua primeira prioridade, a meta para a qual caminharam
sem medir esforços nem sacrifícios. Foi uma entrega total.
Assim, seguindo pelo caminho estreito e entregando as próprias
vidas em sacrifício, eles conseguiram fazer com que a mensagem
da Boa Nova pudesse atravessar os séculos e, mesmo de forma
distorcida, chegar até nós.
Hoje estamos numa nova fase de
transição; desta vez, muito mais radical porque o mundo vai
mudar de grau. De “provas e expiações” passará à condição de
“mundo de regeneração”. Com isso, as imensas legiões de
espíritos empedernidos no mal, sabendo que poderão ser exiladas
para mundos inferiores, estão “jogando todas as suas cartas” na
tentativa de dominar o planeta e aqui permanecer.
Pode-se então facilmente
observar o quanto essa fase está sendo conturbada, com as
legiões do mal aplicando todos os seus recursos, sua ciência e
tecnologias para vencer quaisquer esforços que visem à
iluminação do ser.
Estamos assim novamente diante
das duas portas, a larga e fácil e a estreita e difícil, só que
as dificuldades de agora são diferentes. Diria até que são
maiores, porque naquela época ainda pairava no ar a presença do
Mestre e seus ensinos e exortações eram repetidos diuturnamente
pelos seus seguidores, inflamando-os. Seus corações pulsavam na
vibração da Boa Nova, como se fosse o próprio cântico dos anjos
a se espalhar sobre os montes, vales e cidades, abençoando
corações que há muito aguardavam por ela.
Hoje, temos um movimento
espírita formado por diversos tipos: os que aderiram à nossa
doutrina, por achá-la coerente; os que chegaram empurrados pelo
sofrimento e aqueles outros, poucos, cujos corações pulsam ao
ritmo da revelação espírita e que fizeram do espiritismo seu
projeto de vida.
A situação é bem diferente
daquela do primitivo cristianismo, porque o espiritismo
institucionalizou-se, perdendo o ar de cumplicidade geradora de
companheirismo e fraternidade. Por outro lado, os poderes das
trevas tudo fazem, não para destruí-lo ou parar a sua marcha,
mas para evitar que se aloje nos corações e realize as
transformações que o Mestre espera.
Nesse contexto, é fácil
observar como os estudos doutrinários, os cursos e as atividades
caritativas que são realizadas nos meios espíritas pouca
resistência encontram, mas qualquer ação visando à “vivência”
dos conteúdos espíritas encontra grandes dificuldades para se
firmar e produzir efeitos. Nota-se uma espécie de apatia, de
desinteresse por propostas que visem, de forma prática e
concreta, levar à vivência da amorosidade, da alteridade
(respeito pelo pensamento dos outros, por sua maneira de ser, de
viver, por seus direitos, etc.), da humildade e demais
valores. A propósito, cabe lembrar o que disse
Ermance Dufaux:
"Espiritismo na cabeça é informação. No coração é
transformação".
É verdade que, paralelamente,
vem acontecendo um despertar para a busca desses valores, mas
isto reflete a minoria e mesmo os grupos que se formam visando a
esse crescimento interior encontram grandes dificuldades a fim
de conseguir melhores resultados. É o trabalho maciço das
sombras contra essas luzes.
Vemos então que este é o
momento de relembrarmos os primitivos cristãos, a sua entrega, o
seu amor, a sua renúncia, para ganharmos nós também mais
disposição e energia em nossa luta com vistas a vencer as forças
do mal. Também importa lembrar que o foco principal dessa luta
deve estar em nossa
TRANSFORMAÇÃO INTERIOR.
Lembremos que os cristãos
primitivos vivenciavam realmente os ensinamentos de Jesus, tanto
na prática da caridade quanto em suas atitudes. Depois, tudo foi se
transformando. O foco foi mudando até institucionalizar-se numa
igreja, a Católica Apostólica Romana.
Será que vamos deixar o
espiritismo também acabar como mera instituição de caráter
filosófico, científico e religioso, crescendo em número de
centros e de adeptos, “mostrando a cara” ao mundo, como tantos
desejam, mas sem cumprir a sua finalidade maior, que é a
transformação do ser?
Diante do
exposto, cuja realidade qualquer espírita militante percebe facilmente,
observa-se a necessidade (urgente) de mudanças nos meios espíritas, nas
atividades dos centros, na mentalidade dos dirigentes e dos trabalhadores, no
convívio na casa espírita, na forma como vivenciamos e apresentamos o
espiritismo àqueles que nos procuram.
Procuremos então refletir,
fazer reuniões, trocar idéias, criar fóruns de debates, tudo que for preciso
para percebermos quais mudanças estão sendo necessárias, e o quê e como fazer para
difundir tais percepções e/ou
implementá-las.
(Trechos do opúsculo " O
espiritismo em época de transição", disponível para download no link:
Download)
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